sábado, 23 de março de 2019



O olhar cego (2ª parte).



Percepção algo a ser construído
De certo, sem graça, o biologicamente dado
Melhor arriscar-se, despretensão em atribuir
Novos sentidos outrora, objetivamente criados


Percepção, um acontecimento encarnado
Hoje desencarnada hiperestimulação mental
Reducionismo equivocado do próprio existir
Excluído o sentir, adoecimento sensorial


Num mundo de pessoas razoavelmente limitadas
Necessidade do olhar cego não nomeado
Que apreendem o mundo não apenas pela linguagem
Exigência d’uma percepção completa, convite desejado


Para além daquelas palavras úteis
Para além do contorno do mundo concreto
Percepção é experiência de ser poeta
Delineio imagético, subjetivo, liberto


Percepção para compreender? É para incorporar
Ser mais sensível; menos razão, mais emoção
O nome objetivo empobrece a imagem
Olhar subjetivo transvisto, voltar a humanização

Ricardo Valentim

domingo, 17 de março de 2019

O olhar cego (1ª parte).

Subcortical côncavo e/ou cortical convexo.
Mundo projetado ou/e recebido paralelo.
Ora não atravessado, ora criado interpretado.
Por vez, um olhar objetivo; por outra, geográfico.
 
Movimento perceptivo num equilíbrio relacional.
Da sensorialidade não consciente ao delineio espacial.
Quando não imaginativo, subjetivista exagerado.
Comprometimento adaptativo, conflitivo, neurotizado.

Sujeito e objeto elementos da percepção.
Não antes interpretar, olhar a priori a relação.
Num outro em que o mundo se abre a nós.
Sem o vício filtrante de um mesmo algoz.

O andar por essa via é uma vida de mão dupla.
Sem norma rígida, estereotipada, pré-concebida.
Seguimos no tocar o outro, voltamos no ser tocado.
Entrelaçamento esvaziado, pleno e cego, experienciado.

 

Ricardo Valentim

terça-feira, 12 de março de 2019






Espelho, espelho não meu.


O que é aquilo que vejo?
O que é aquilo que domino?
É o domesticado daquilo que espero.
Do que vejo no meu não puro íntimo.


Versão incerta incompleta de mim.
Não reflete aquilo que sou.
Sem fluxo, sem risco, sem vida.
Espelho estável, bem seguro estou.


Mas como suster minha falta de sentido?
Em meu vazio estéril de movimento.
Um olhar para mim sem definir meus limites
Daquele afeto que o espelho me esconde no medo


Mas olhar para o meu não espelho é preciso.
Estar nele num desejoso sinal de querer.
Para ser atravessado, exposto no sentir.
Numa experiência transformadora do meu ser.


Cada tempo se estrutura essa minha história.
Que conta um conto desse meu existir.
Agora vou olhar-me no meu não espelho sorrindo.
Processo de reconstrução do meu ver em mim.

Ricardo Valentim

domingo, 10 de março de 2019


Ensinados a não sentir.



A gente nasce, corpo e mente surgem.
A gente percebe, construímos quem somos.
A gente se organiza, nos sentimos no mundo.
A gente vive, qual sua ética urge?

Percepção é falar desse acontecimento.
Percepção é falar desse encarnado.
Percepção é ter experiência, vivência.
Percepção, nosso bem desejado.

Hoje, quase nunca sentimos.
Quase sempre apenas mentais.
Quase nunca experiências ficando.
Quase sempre apenas passando.

Mas, conhecer-se será sempre o caminho.
Conhecer seu abrir e fechar territorial.
Conhecer seu até onde ir.
Conhecer seu limite perceptivo, sensorial.

Experiência é abrir-se ao encontro.
Experiência é transformação de si, do outro, e dessa relação.
Experiência é instância da criatividade.
Experiência é potência de liberdade.

Ricardo Valentim